A OUTRA EQUAÇÃO – Por José Fernando Magalhães (12)

 

 

À CONVERSA COM A VIDA  9

 

As Máscaras que Somos

 

Há tempos detive-me diante de um quadro, numa exposição de pintura em Baião. Não foi a máscara que me inquietou. Foi o rosto que adivinhei por baixo dela. Vi-me.

Paro diante dos rostos e sinto o peso do olhar. Há sempre um rosto por baixo do rosto.

Nem sempre o conhecemos; passamos a vida a evitá-lo. Construímos sobre ele camadas de conveniência, decoro e sorrisos de circunstância, até que a máscara se cola de tal forma à carne que já não sabemos onde acaba o artifício e começa a pele.

A máscara não nasceu connosco. Durante séculos serviu rituais onde ocultar significava revelar. Hoje acontece o contrário. Hoje, usamo-la de forma mais manhosa. Vestimo-la ao sair de casa. No trabalho somos uma personagem, à mesa da família outra, no café com os amigos uma terceira. E o drama não é o facto de a usarmos; é a facilidade com que nos esquecemos de a tirar quando ficamos a sós.

Admito a sua utilidade. A máscara social é o óleo que impede que as engrenagens humanas gripem ao primeiro atrito. O problema é a exaustão. Há um momento, e reconheço que o meço pela fadiga do meu próprio espelho, em que o esforço de representar nos esvazia.

Somos uma multidão mal-organizada a tentar falar a uma só voz. Sentimos isso na pele. Vemo-lo no teatro quotidiano que não prevê um camarim para lavar a cara. Salva-nos, por vezes, a emboscada da solidão. Aquele instante antes de adormecer, ou uma conversa raras vezes verdadeira, em que a máscara escorrega. Esses momentos assustam, mas serão a única trégua que temos.

Retirar a máscara não exige palco. É um acto pequeno, quase clandestino. Dizer o que se pensa quando todos esperam concordância. Mostrar a fissura quando todos esperam perfeição.

Há quadros que não mostram apenas figuras; mostram a porosidade entre o que escondemos e o que expomos. É nessa zona de fronteira, onde a tinta parece pele e a pele parece tinta, que me reconheço.

No fim de contas, não se trata de viver em nudez permanente, já que isso seria insustentável. Trata-se de saber que trazemos a máscara posta. E de ter a coragem de, num canto escuro ou diante de quem amamos, a pôr de lado para que o rosto verdadeiro possa, finalmente, apanhar um pouco de luz.

 

 

 

[Inspirado por A Segunda Pele, de Balbina Mendes]

 

 

 

 

 

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